17 setembro 2010

Provedor de Justiça






Retrato a óleo da autoria do pintor João Freitas, integrado na galeria dos antigos  Provedores de Justiça inaugurada em 18 de Março de 2015.



























«Artigo 24.°
(Provedor de Justiça)

1 - Os cidadãos podem apresentar queixas por ações ou omissões dos Poderes Públicos ao Provedor de Justiça, que as apreciará sem poder decisório, dirigindo aos órgãos competentes as recomendações necessárias para prevenir e reparar injustiças.
2 - A atividade do Provedor de Justiça é independente dos meios graciosos e contenciosos previstos na Constituição e nas leis.
3 - O Provedor de Justiça é designado pela Assembleia da República.»

Contudo, em momento anterior à aprovação da Constituição e ao abrigo do Decreto-Lei n° 212/75, tinha já sido nomeado, por despacho da Presidência da República publicado no Diário do Governo, 2.ª série, de 31 de dezembro de 1975, o primeiro Provedor de Justiça, o Tenente-Coronel Manuel da Costa Brás. Pretendendo documentar-se sobre o modo de funcionamento das instituições análogas existentes na Dinamarca e em França, o Provedor de Justiça designado iniciou, no dia 18 de Janeiro de 1976, uma visita àqueles países, junto de quem colheu elementos sobre o modo de resolver os problemas inerentes à instalação em Portugal do Serviço do Provedor de Justiça, criado pelo Decreto-Lei n.º 189-A/76, de 15 de março, com o propósito de prestar o apoio técnico e instrumental necessário à prossecução das atribuições daquele. Em 17 de março de 1976, o Tenente-Coronel Manuel da Costa Brás tomou posse como Provedor de Justiça, órgão de Estado que representou até à sua nomeação como Ministro da Administração Interna, ocorrida em 23 de julho de 1976. Seguiu-se-lhe no cargo José Maria Barbosa de Magalhães Godinho, que tomou posse em 12 de novembro de 1976.
Desde a sua instituição, no ano de 1975, até à presente data foram nove (contando com o atual representante deste órgão de Estado) os Provedores de Justiça em Portugal.

No âmbito da comemoração do 40.º aniversário do Provedor de Justiça em Portugal foi realizado, pela Escola Superior de Comunicação Social, um pequeno filme sobre este órgão de Estado.






16 setembro 2010

Provedor de Justiça [tomada de posse]




Manuel da Manuel da Costa Braz discursando na sessão solene da sua nomeação na presença  do Presidente da República Costa Gomes, do Primeiro   Ministro Pinheiro de Azevedo, do Chefe Estado-Maior da Armada Souto Cruz, do Ministro dos Negócios Estrangeiros Melo Antunes,  do Chefe Estado-Maior do Exército Ramalho Eanes, do Ministro da Cultura Víctor Alves, do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça José Joaquim de Almeida Borges  e de outras  personalidades civis e militares.



Gostei muito de ver (porque já não me lembrava ) quem assistiu à minha tomada de posse como Provedor de Justiça e as funções que detinham na altura. O acto decorreu nas instalações do Provedor de Justiça - aliás no que seria o meu gabinete.

O seu interesse particular reside, no meu entender, na relevância que era dada à função, que felizmente ainda permanece. Entre outros aspectos, note-se que a posse foi conferida pelo Presidente da República e a ela assistiram, entre outros, o PM, o Ministro da Justiça e o Presidente do STJ, além dos chefes de Estado Maior do Exército e da Marinha, estes talvez mais com razões pessoais que institucionais, mas significativas.

O edifício, na Av 5 de Outubro, estava devoluto, foi arrendado,(o dono era entre outras coisas fazendeiro em S.Tomé ),foi alvo de adaptações às actividades que ia receber mas sem qualquer alteração ou retirada do que constituía a sua decoração. Diga-se que o rés-do-chão se poderia classificar como tendo alguma sumptuosidade.

Os quadros que passaram a ornamentar as paredes fui buscá-los emprestados pelos depósitos de alguns museus nacionais , boa parte do mobiliário veio das caves do Palácio da Laranjeiras onde as peças estavam depositadas (tudo sob requisição) e as aquisições do mobiliário para os gabinetes dos assessores, no primeiro andar, verdade seja que destoavam da guarnição natural desses gabinetes pois foram peças simples, de escritório, na maioria metálicas que tinham dificuldade em condizer com lareiras de mármore trabalhado.. 

A tomada de posse foi feita coincidir com a abertura oficial ao público, depois dos trabalhos prévios de preparação, recrutamento de colaboradores, organização e definição da metodologia de trabalho, que sei ainda se manter nas suas linhas essenciais.

Gostei desta descoberta ! "


Manuel da Costa Braz



08 de Abril de 2014





15 setembro 2010

I Governo Constitucional





Tomada de posse do 1º Governo Constitucional, do qual Manuel da Costa Braz fez parte como Ministro da Administração Interna.








O 1º Governo Constitucional tomou posse a 23 de Julho de 1976, sendo constituído pelo Partido Socialista com base nos resultados das eleições de 25 de Abril de 1976. Terminou o seu mandato a 23 de Janeiro de 1978.

Na  1ª fila, Firmino Miguel, Henrique de Barros, Mário Soares, Jorge Campinos e Sousa Gomes. 2ª fila, Mário Sottomayor Cardia, Almeida Santos, Mota Pinto, Nobre da Costa, Medeiros Ferreira, António Barreto, Manuel da Costa Braz, Medina Carreira,  Almeida Pina, Eduardo Pereira, Maldonado Gonelha, Rui Vilar, Manuel Alegre, Armando Bacelar e Santos Pais.









1º Governo Constitucional à saída da residência do Primeiro Ministro.









Constituição do I Governo Constitucional.









Apresentação do I Governo Constitucional na Assembleia da República .











Apresentação do I Governo Constitucional na Assembleia da República.







Apresentação do I Governo Constitucional na Assembleia da República.









Apresentação do I Governo Constitucional na Assembleia da República.


Fonte - Edição de 6 a 12 de Agosto de 1976  do semanário "OJornal"












Durante a discussão na Assembleia da República do Orçamento e do Plano do I Governo Constitucional, Mário Soares, Manuel da Costa Brás, Henrique de Barros, Manuela Silva e António Barreto, acertam estratégia governamental.





Fonte - Edição de 31 de Dezembro a 6 de Janeiro de 1977  do semanário "O Jornal". 







13 setembro 2010

Aniversário dos "Nove"






Ao princípio da madrugada de sábado passado, logo a seguir à reunião do Conselho da Revolução, os oficiais do Grupo dos Nove ("os nove" mais os que subscreveram o documento) reuniram-se numa ceia de confraternização em casa de um deles. Durante o encontro (que decorreu mum ambiente de franca camaradagem, a provar o "espírito de corpo" construído no Verão quente de 75) foi descerrada uma lápide na sala onde se realizaram a maior parte das reuniões, assinalando o "Quartel General da Resistência". Falta dizer que o QG se localiza na casa do comandante Gomes Mota.

Ainda  no âmbito das comemorações do "Documento", muitos dos oficiais que o subscreveram  reuniram-se num almoço de confraternização que decorreu também num óptimo ambiente de camaradagem. Local: um restaurante ali para os lados de Santos, onde, há um ano, os "Nove" se encontravam com frequência..."

Foto e texto publicados no semanário " O Jornal" na sua edição de 13 a 19 de Agosto de 1976


Nota - A propósito das reuniões organizadas pelo “Grupo dos Nove”, recebemos do coronel Costa Braz  um  comentário a esta publicação, que  dada a importância histórica que lhe está subjacente,  achamos por bem  aqui  transcrevê-lo. Começa assim o texto do antigo ministro da Administração Interna:

“Antecedendo o 25 de Novembro de 1975, durante o chamado "verão quente", um núcleo de afectos ao que ficou conhecido por "grupo dos Nove" e que vieram a ter relevância particular na conduta militar vitoriosa nos eventos desencadeados naquele dia, reunia-se com frequência no sótão da casa do Comandante Gomes Mota, onde passado um ano se tiraram as fotografias com uma placa comemorativa.
Outro ponto de encontro do mesmo grupo ou parte dele, era o 1º andar (não público) do Restaurante O Chocalho, em Santos, que apesar de tudo proporcionava recato suficiente para os assuntos que ali se debatiam.”


Costa Braz - 21 de Janeiro de 2011





12 setembro 2010

Suspensão de Mota Freitas





Notícia publicada na edição de "O Jornal" de 13 a 19 de Agosto de 1976.




Sobre este assunto, referir-se-ia  Costa Brás em entrevista  concedida a  José Carlos de Vasconcelos  na edição do mesmo jornal  de  22  a 28 de Outubro de 1976.  Dessa entrevista  transcrevemos o respectivo excerto:

O "O Jornal" - Falou em casos especiais e eu recordaria um outro, o do comandante da PSP do Porto, ainda suspenso, major Mota Freitas, e o seu segundo comandante, que teria eventualmente sido ouvido no âmbito das investigações sobre a possível rede terrorista. Há alguma alteração de sitaução?


Costa Brás - Não, não existe alteração de situação e lamento que ela ainda não esteja plenamente clarificada. Isso corre exclusivamente através das Polícias Judiciárias, civil e militar. Não tenho qualquer interferência nas averiguações e havia toda a vantagem em que se retivesse aquela clarificação.







11 setembro 2010

Entrevista ao "O Jornal"







Ligado ao MFA de cujo programa foi um dos colaboradores, homem do 25 de Abril, o tenente-coronel Costa Brás apareceu na "cena" político-militar como ministro da Administração Interna do II e III Governos Provisórios, cargo que deixaria de ocupar no IV na sequência do 11 de Março. Ao mesmo tempo pertenceu ao "Conselho dos Vinte" orgão  que  de certo modo precedeu o "Conselho da Revolução", e foi enquanto ministro, o principal responsável pela montagem de toda a "máquina" que tornou possível a realização das primeiras eleições livres dos últimos 50 anos.
Tendo deixado o MAI, Costa Brás passou a ser embaixador itinerante do Ministério dos Negócios Estrangeiros de cuja pasta era então titular o major Melo Antunes, e esteve desde o início ligado às posições que se haveriam de consubstanciar no "documento dos nove", de que foi dos primeiros subscritores.
Foi depois designado pelo Presidente da República, durante a vigência do VI Governo, para provedor da Justiça, um dos mais importantes cargos do que se poderia chamar a "hierarquia do Estado". Mas abandoná-lo-ia para, numa descida formal que aceitou,  ocupar de novo o cargo de ministro da Administração Interna, agora do I Governo Constitucional.

Neste momento em que pelo seu departamento passam alguns dos mais importantes problemas da nossa vida cívica e política, nomeadamente as eleições para as autarquias locais, o tenente-coronel Costa Brás deu, sobre esse e outros pontos, a sua primeira entrevista, em diálogo com o nosso camarada José Carlos de Vasconcelos.

"O Jornal" - Confirma-se a data de 12 de Dezembro para as eleições nas autarquias locais? Qual o estado actual dos trabalhos preparatórios nesse domínio?
Costa Brás - Neste momento, decorrem normalmente os trabalhos para apresentação das candidaturas, embora com uma ou outra dificuldade, de certo modo previsível. Esta é uma das razões por que o prazo dessa apresentação foi largado de uma semana, terminando  pois  a 29  deste mês; por isso, também, surgiram algumas das  alterações introduzidas na lei. Devo fazer notar que, pela primeira vez, se realizam eleições com esta amplitude e nenhuma experiência havia, portanto, do antecedente. É muito grande o esforço organizativo necessário, embora se beneficie, naturalmente, dos dados colhidos e processos utilizados nas outras três. A feição descentralizada da sua execução é a característica principal  e  a sua diferenciação das anteriores.

P - Quantas pessoas vão ser eleitas, em todo o País?
R - Não tenho um calendário exacto, mas estima-se que estejam envolvidas à volta de 40.000 nomes. Um autêntica mobilização nacional: 4.017 freguesias e 304 concelhos, para que há que escolher os componentes das assembleias e das câmaras.

P - A lei aprovada foi objecto, por sectores diferentes, de dois tipos essenciais de crítica: por um lado, apenas se admitiu que cidadãos, independentes dos partidos, apresentassem listas ao nível de freguesias, (embora, em minha opinião, exigindo-se número demasiado elevado de proponentes), mas ao nível de municípios apenas os partidos puderam fazê-lo; por outro lado, segundo o PPD e o CDS, o sistema proporcional viria tirar operacionalidade aos executivos. Poderá dizer alguma coisa sobre estes dois pontos?
R - Antes da resposta objectiva um esclarecimento ou informação que julgo útil. Quando assumi as funções que desempenho, encontrei vários projectos de lei eleitoral, os quais, com maior ou menor detalhe, tratavam da composição dos orgãos do poder local, funções e processo eleitoral. Decidi a divisão do assunto - a da lei - em três partes: na primeira tratar-se-ia da composição dos orgãos e funções genéricas; na segunda, do processo eleitoral, com o necessário detalhe; numa terceira, especificar-se-iam as atribuições.
Parece-me claro, mas realço, o cunho político da primeira e da última, e o carácter essencialmente técnico da segunda. O Ministério encarregou-se das primeiras - que são os Dec-Leis 701-A/76 e 701-B/76 - e está pronto a colaborar com a Assembleia da República no terceiro, em quanto lhe for solicitado. Penso mesmo tomar esse iniciativa. No entanto, a elaboração daqueles diplomas realizava-se ao abrigo  de uma disposição transitória da Constituição e entendeu-se que a primeira parte que referi deveria ser dialogada com representantes dos outros partidos com assento na AR. Assim se fez, aliás, com alguma demora.
Do juízo que cada partido fazia do método proporcional que ali se estabelecia nasceu, fundamentalmente, no meu entender, a sujeição do diploma à rectificação da AR e sua natural discussão. Concretiza-se o seu cunho político nos dividendos partidários colhidos dessa discussão que apesar do pormenor que atingiu, considero útil.

"Não estou pessimista quanto à futura operacionalidade das câmaras"
P -  Quanto à operacionalidade?
R - A relação entre a "proporcionalidade" e a "operacionalidade" é difícil de estabelecer aprioristicamente. Considero, no entanto, que a sua utilização tem efeitos mais estabilizadores que o contrário.
Havia que tomar uma opção, que durará três anos, com as suas virtudes e defeitos. Então se decidirá em definitivo. Entretanto, penso que o sentir dos problemas locais obrigará a uma vivência democrática de que tão carecidos estamos. Será necessariamente uma experiência muito útil. Não estou, portanto, pessimista quanto á operacionalidade, e contrariar-se-ão "bairrismos" e "clubismos" nefastos. As excepções, que espero sejam reduzidas ou nulas, estou certo que  confirmarão a regra.

P - Quanto ao problema de só os partidos apresentarem listas ao nível de municípios, parece-lhe essa a solução mais adequada?
R - Não digo que seja a mais, mas creio difícil de dizer que é a menos adequada. É uma solução passível de crítica e de apoio. Da liberalização excessiva desse tipo de apresentação de candidaturas - quer quanto à natureza em si, quer quanto ao número de proponentes - podem resultar nalguns sítios, proliferação de tal ordem  -  por bairros, nas ruas  ou nas freguesias - que poderia fazer graves problemas à exequibilidade da eleição. A excelência da teoria defronta-se com as dificuldades do real previsível.

"Dotações orçamentais serão substancialmente aumentadas"
P - Quanto às funções, a importância do poder local depende das dotações orçamentais. Como vê a necessidade um aumento de verbas, dado que em Portugal os destinados às autarquias são apenas cerca de 8 por cento do orçamento, enquanto em França  ascendem  a  30 por cento, a um terço do total nos países anglo-saxões, salvo erro 60 por cento na Suécia e 75 por cento na Polónia?
R - Julgo eu não existirem dúvidas que há uma intenção de dar às autarquias uma possibilidade efectiva de serem realmente autarquias, portanto, a capacidade de acção descentralizada, desconcentradas, de gerirem os seus próprios interesses. Isto está directamente relacionado com o problema que abordou logo de imediato, que é o problema das dotações. Também aqui existe uma história:
Quando estive no Ministério pela primeira vez, no segundo semestre de 1974, iniciou-se um trabalho de fundo sobre o problema das finanças locais e a orientação dada era a de canalizar para as autarquias uma larga fatia das recolhas fiscais. Seria com base nesses meios que os municípios organizaram o seu próprio orçamento, o que era uma coisa completamente diferente do que tem vindo a fazer-se até agora. Finalmente, seria adicionada, uma segunda fatia que resultaria de uma distribuição participada, a nível nacional, procurando-se com essa distribuição um equilíbrio de investimento "per capita"  igualizador ou compensador, porque só assim se poderia ir ao encontro das necessidades locais das zonas mais carecidas, em que as recolhas fiscais também são menores.
Esse trabalho não foi levado a termo em consequência dos acontecimentos políticos posteriores ao 11 de Março, das dificuldades de previsão de receitas, tendo, entretanto eu saído do Governo. Neste momento, retomou-se o referido trabalho, com o objectivo análogo, e está prestes a ultimar-se a recolha dos dados necessários para esse efeito. Em resumo - retomamos os princípios, retomamos os objectivos, mantemos as intenções e, efectivamente ir-se-ão reforçar as finanças locais para lhes dar a capacidade efectiva de gestão, que não têm tido até aqui, com os 8 por cento que referiu.

P - Embora, evidentemente, não dependa só do âmbito do Ministério da Administração Interna, qual lhe parece ser a dotação orçamental mínima capaz de fazer com que as autarquias possam desempenhar um papel significativo e o poder local possa ser efectivamente dinamizado?
R - Não posso dizer-lhe qual será a percentagem, porque ela está em evolução, até mesmo em face dos encargos com o pessoal. De maneira que é necessário fazer ajustamentos.

P - Mas de qualquer forma é um aumento substancial?
R - É um aumento substancial que já se está a verificar na realidade, quer com atribuição de subsídios pontuais, que foi o modo adoptado, até ao final de 1976, de acorrer a necessidades momentâneas sem grandes preocupações de planificação. Procurar-se-á preparar para 1977 essa planificação geral, que, é bastante difícil.

"A substituição de governadores civis"
P - Na recente substituição dos governadores civis - evidentemente, julgo eu, decisão do Governo e não apenas do ministro da Administração Interna - verificou-se, na quase totalidade dos  casos, uma entrada para responsáveis dos distritos de elementos afectos ao PS. Parece-lhe essa a melhor solução? Quais as vantagens e os inconvenientes?
R - Creio que fui claro no próprio discurso de posse quando disse que o critério utilizado na escolha e designação se baseava no mesmo princípio que eu próprio tinha utilizado quando no segundo Governo Provisório promovo as primeiras nomeações: os governadores civis são, na área do respectivo distrito, os representantes do Governo, que agora tem feição diferente dos anteriores. Assim, foi entendido, aliás pelas figuras cessantes que, em devido tempo, puseram naturalmente os seus lugares  à disposição do Governo por seu intermédio. Não está em causa a sua capacidade e idoneidade, mas tão só uma coerência entre a participação do Governo e as funções que lhes estão atribuídas pela própria Constituição.

"Desocupações"
P - Uma das questões de maior relevância pública, neste momento, no âmbito do MAI são as desocupações a que se procede, de acordo com a lei da Reforma Agrária. Como têm decorrido, em geral, as já efectuadas e quais as perspectivas daquelas que ainda não estão em curso?
R - Disse que é de relevância pública e é verdade. O MAI não é muito propenso a fazer grandes espalhafatos sobre as suas actividades, e essa foi uma das que, ultimamente mais repercussão teve, em função das expectativas que foram criadas  à volta da matéria.
O modo como elas têm estado a decorrer, e que é dito com toda a honestidade nos comunicados diários, é perfeitamente normal, sem incidentes. Relativamente às que ainda faltam, temos boas perspectivas de que assim continue a ser o que não significa que, num ou noutro caso, não possa uma maior ou menor dificuldade, que entretanto se procurará ultrapassar.
Mas isto significa, também, uma outra coisa: é que, tendo-se começado esta campanha de normalização dessas situações, no início do mês, o trabalho estava a ser preparado desde o princípio de Setembro.

P - Dependem do MAI as forças de segurança, de quem nos últimos tempos não se tem falado muito. Estão em curso alguns trabalhos de organização ou remodelação de algumas dessas forças? Em relação à PSP e a uma força de intervenção que foi criada estão definidos os seus objectivos? Ainda  neste domínio, quaisquer alterações, nomeadamente atendendo ao possível aumento do combate  à criminalidade na parte que cabe à PSP e  à GNR?
R - Em qualquer dessas duas forças há uma preocupação grande, que aliás já o era quando da primeira vez que estive  neste cargo,  com a reformulação das características  de actuação, mais pelo convencimento do que pela forma coerciva.
As forças de segurança estão em plena  campanha de mentalização para alteração de procedimentos. No entanto é perfeitamente natural que existam forças de segurança aptas para intervenções especiais quando estas forem em absoluto requeridas..
Não se seguirá, pelo menos comigo, um esquema de condescendência sistemática com a perturbação da vida social  que prejudique a própria vivência democrática. Mas esta determinação não exclui, bem pelo contrário, a prudência e o respeito pelo cidadão - o que não se verificava anteriormente.

Forças de segurança e o "caso"  Mota Freitas
P - Entretanto, reconhecer-se-á que apesar de tudo, depois do 25 de Abril houve alguns procedimentos  menos compatíveis com essa linha: por exemplo, quando foi a greve dos empregados do Comércio, em que houve no Rossio incidentes de uma certa gravidade  -  de que resultou - a morte de uma pessoa  - sendo saliente a intervenção da Polícia, de G-3 no meio da cidade. Portanto, esse tipo de actuações, nomeadamente através de armamento desproporcionado para o meio que se visa atingir, vai acabar ou já acabou?
R - A ordem que está dada nesse sentido visa exactamente o contrário; isso não será de nenhum modo uma actuação normal. Não haverá G-3, nem será normal que uma força de segurança utilize G-3.

P - Falou em casos especiais e eu recordaria um outro, o do comandante da PSP do Porto, ainda suspenso, major Mota Freitas, e o seu segundo comandante, que teria eventualmente sido ouvido no âmbito das investigações sobre a possível rede terrorista. Há alguma alteração de situação?
R - Não, não existe alterações de situação e lamento que ela ainda não esteja plenamente clarificada. Isso corre exclusivamente através das Polícias Judiciárias, civil e militar. Não tenho qualquer interferência nas averiguações e havia toda a vantagem em que se retivesse aquela clarificação.

P - Suponhamos que findo o prazo de prisão preventiva e que havendo alguns indícios de presumível implicação, mas não estando concluído o processo por qualquer outro aspecto legal, seja posto em liberdade, retomará as suas funções ou não?

R - Naturalmente que não.








"Um crescendo de intenções e actos que visam atingir a democracia"
P - Como vê a situação política e militar? E a posição do Governo, a sua capacidade e viabilidade para resolver os múltiplos problemas que se impõem ao País?
R - Dar-lhe-ei uma opinião muito pessoal e em nada vinculativa ao Governo. Viemos encontrar situações bastante difíceis em variados sectores, poderemos dizer mesmo que degradadas. Há muito para fazer, e urgentemente. Sinto que o Governo se empenha nessa tarefa esgotante  com entusiasmo e vontade. Mas o êxito, que a todos interessa ou deve interessar, não depende exclusivamente de quem governa, e, também, muito principalmente, dos governadores. A sobrevivência do regime democrático depende da consciência generalizada do risco e da sua transformação em consciência cívica apontada para a recuperação económica e estabilidade social e política. Isto não significa a ausência de crítica, a interpelação, a exigência de responsabilidades; como não significa e  "quem não está comigo está contra mim"  de tão amarga memória.
Neste momento, importante e prioritário é defender a democracia - sem aqui abrir polémica de socialogia política em torno da palavra - . Tenho de facto a noção de que existe um crescendo de intenções e actos que visam atingi-la  -  e os orgãos de informação são disso claro reflexo, como sexta feira passada se pôde verificar. Temos, neste momento, um País hipersensível, alarmável com facilidade, e há quem saiba isso e quem o aproveite.
A tarefa do dr. Mário Soares  é  realmente árdua, e põe à prova  repetidamente a sua extraordinária capacidade de homem político.
Com as cautelas requeridas estou confiante que o Governo levará a bom termo o seu encargo para com a Nação, apesar de uma ou outra diligência, mais ou menos concertada, para abalar estruturas, orgãos ou instituições. Às vezes com demasiado despudor, que surpreende até, pelo objectivo que apesar de tudo deixa antever.

P - Entretanto, de qualquer forma, mais do que um sector, sectores diversificados e às vezes do interior do próprio partido do Governo afirmam ou reconhecem a existência de em certos domínios de um sectarismo na escolha das pessoas, não adequadas para o cargo, e que isso sim, poderá pôr em causa o Governo e de certa forma a democracia...
R - Não diria  "isso sim"  mas  "isso também". Pessoalmente, sou em absoluto avesso ao sectarismo. Não me cabe a mim fazer um juízo sobre quem seria a pessoa mais adequada para um lugar ou para outro, mas reconheço a validade do princípio que, especialmente em sectores de natureza predominantemente técnica, será de mais fácil aplicação.

P – Entretanto, ao nível militar têm sido nítidas também, nas últimas semanas, tentativas de “desestabilização”, agora atribuídas de modo praticamente unânime por todos os observadores informados e sérios à direita ou a extrema-direita. Que nos pode o tenente-coronel Costa Brás dizer sobre isto?
R – Quanto ao meio militar, a força das circunstâncias tem-me mantido afastado de um contacto mais assíduo e diversificado com camaradas meus e impede-me de ter uma noção minimamente correcta do que nele se passa. Mas a verdade é que um militar é como outro qualquer, embora propenso a reagir em grupo. As adulações e os vilipêndios de que tem sido alvo, de acordo com as conveniências e os ventos, se muito mal trouxeram e trazem, originam um benefício: a experiência.
Se a coesão das Forças Armadas é indispensável, haverá quem a queira abalar, mas não acredito que tenha sucesso quem o intente.

P – Em que outros trabalhos está, neste momento, fundamentalmente, o MAI interessado?

R – Para ser breve, tem-se como prioritário e em curso, no que respeita á função pública, o estudo da reformulação das carreiras e quadros; na Administração Regional, além do que já disse, o completamento do funcionalismo das autarquias e a sua preparação e actualização através, por agora, de equipas itinerantes, porque se pretende reactivar a ideia da criação de uma Escola Administrativa Pública em ligação com o MEIC; genericamente, seguir num e noutro sectores uma política de valorização do funcionalismo em geral e em especial dos quadros.




Entrevista publicada na edição de 22 a 28 de Novembro de 1976  de " O Jornal"






10 setembro 2010

Eleições Autárquicas 1976





Fonte –  Gazetasaloia 










Manuel da Costa Braz de visita ao distrito de Castelo Branco.



Fonte - Edição de 19 a 25 Nov 1976  "O Jornal".






"Esta visita a Castelo Branco inscreveu-se num conjunto de visitas pelo Território nos preparativos para as Primeiras Eleições Autárquicas. Lembro-me de haver uma fotografia, publicada algures, em que estou a falar com um casal já de idade que se fazia transportar numa carroça nas imediações da cidade. Essas visitas serviam-me também, é óbvio, para auscultar directamente o nível de conhecimento que havia sobre as eleições e da disposição para irem votar. Foram muito interessantes."


Manuel da Costa Braz










Fonte - Edição de 11-Dez-1976  "Diário Popular".














Fonte - Edição de 11-Dez-1976  "Diário Popular".

















Manuel da Costa Braz enquanto esperava pela sua vez de votar e acompanhando o então Presidente da República, António Ramalho Eanes (de costas, na cabina de voto). Foto - João Ribeiro











Manuel da Costa Braz cumprindo o acto cívico de votar para as Eleições Autárquicas de 1976. Foto - João Ribeiro












Fonte - Edição de 13-Dez-1976  "Diário Lisboa".











Fonte - Edição de 13-Dez-1976  "Jornal Novo".









          Fonte - Edição de 13-Dez-1976  "Século Ilustrado".










Fonte - Edição de 13-Dez-1976  "Diário Popular".











Fonte - Edição de 13-Dez-1976  "Século Ilustrado".











Manuel da Costa Braz e Victor Alves, com Nicolau Breyner, num intervalo da emissão da RTP Especial Eleições Autarquicas, em 1976.





"As Primeiras Eleições Autárquicas, em 12 de Dezembro de 1976, foram por mim acompanhadas claro no Centro de Escrutínio mas também na RTP, que transmitia o evento. Nessa mesma ocasião era ali gravado um "episódio" do "Sr Feliz e senhor Contente", com Nicolau Breyner e Herman José.

Ali nos encontramos e com o meu saudoso amigo Víctor Alves e eu tive também por aí uma boa prenda de aniversário de casamento."


Manuel da Costa Braz



Foto - Arquivo A Capital