24 julho 2010

Carta a um Amigo!



Esta "carta" foi publicada no Boletim da Associação 25 de Abril nº100 que além de comemorativo pelo seu número redondo foi essencialmente dedicado a homenagear o Cor Vitor Alves, falecido em 8 de Janeiro de 2011 no Hospital Militar Principal. Por ironia premunitória, a edição do Boletim refere-se ao período de Out-Dez 2010 e a dilação havida na edição permitiu juntar dois eventos relevantes: o número redondo da iniciativa editorial da A25A e a infausta ocorrência do desaparecimento de Vitor Alves.  M. Costa Braz


Meu Caro Vítor


Confesso-te que tenho uma grande dificuldade em escrever-te.
Tenho andado de dia para dia para o fazer e a inércia tem vencido.
Entretanto nota que não o faço por qualquer imperativo circunstancial mas sim porque o afastamento leva a relembrar coisas vividas em comum, sejam elas factos, carácter, temperamento, idiossincrasias, o que for. E passá-las a escrito é interessante, até para reviver. Compreendes bem isso tu que, que eu saiba, não escreveste coisa nenhuma para memória futura, colaborando no entanto e felizmente com outros que o faziam para utilidade pública, como creio bem que virá a verificar-se. Não descurarias o interesse público.

É por isso que recordo como nos conhecemos em Setembro de 1971: quando vim juntar-me ao grupo a que tu pertencias e que se propunha fazer o Curso Complementar de Estado-Maior no IAEM. Coisa um bocado complicada para mim, porque na relatividade já seria um pouco vetusto para alguns colegas nossos. E por força de ser major e o mais antigo, era o chefe de curso. Delicado encargo.

A naturalidade da chefia daquele grupo cabia-te, e eu era o intruso que depressa deixou de o ser pela empatia imediata que soubemos criar e desenvolver. Compreendeste e ajudaste nos problemas que eu trazia comigo pelas contingências da vida e perversidade de alguns homens.

A tua vivacidade de inteligência e temperamento torneavam momentos mais complexos, como o faziam também quando, em temas tácticos, se analisavam acaloradamente as dificuldades do ataque quer pela esquerda, quer pelo centro, quer pela direita, e tu vinhas com a solução  do envolvimento vertical  helitransportado .
-Mas não há helis !
-Pedem-se de reforço ao Corpo de Exército!
Dificuldades ? Hão-de superar-se. O que é preciso é imaginação !

Viemos a viver vitórias e frustrações ao longo do curso: como era preciso que nas obrigatórias orais dos exames finais houvesse pelo menos um espectador na sala, pediste-me que te acompanhasse. Assim fiz. E retribuíste.
Quando, com sugestão do Firmino Miguel, coloquei à ”turma” a questão do Congresso dos Combatentes que se anunciava - temática inusitada na ambiência clássica e tradicional daquela Escola - foste dos mais entusiastas e desassombrados na contestação que transmiti ao Director de Curso.

Findo o cansaço e as férias de 1973, fomos para o EME, tu na 4ª Rep com o Sanches Osório e eu na 3ª com o Rebelo Gonçalves.
Disseste-me em Dezembro, em segredo, da tua simpatia pela movimentação que se verificava entre os capitães.
O Osório e tu levaram-me a juntar-me ao grupo para mim agora mais visível em 5 de Fevereiro seguinte, onde te vi, voluntariosamente, na mesa da Comissão Coordenadora do que já era um Movimento de dimensão manifestamente alargada.
Ponderada e silenciosamente, quase sem se dar por isso, dirigias a reunião, de que aliás saí com uma incumbência. Que cumpri.

E aceleraste a vida de dobadoira que já vinhas adoptando.

Mas entretanto e cumulativamente, numa perspectiva de enorme discernimento que poucas vezes é referido e para mim constituiu um contributo inestimável para o triunfo, cirandaste com afabilidade, cortesia e convincentemente pelos outros Ramos procurando a sua adesão ou a neutralidade. E, com alguns colaboradores, conseguiste. E digo assim, porque a tarefa principal foi tua e da tua maneira de ser e estar.

Nas actividades preparatórias logo se manifestaram resultados na elaboração do “Documento de Cascais”, onde ajudaste sabiamente a ultrapassar as dificuldades e hesitações que surgiram na reunião que ali teve lugar em 5 de Março. E que foi, chamemos-lhe assim, o momento chave e decisivo para o que se processaria a seguir. Constituíste o que poderá chamar-se de “núcleo político”, com centro no Ernesto e de que fiz parte e que viria a pensar, ponderar e produzir o Programa do MFA, onde aquele teu trabalho de procura de convergências voltou a ter relevante utilização e bons resultados não só no imediato como no futuro.

Entretanto o Tejo corria célere debaixo da ponte, com algumas precipitações. O tempo urgia.
Paralelamente corria o excelente planeamento operacional, como por mim vim a verificar.

A escada que conduzia ao bar do EME para o café da tarde era local de troca de rápidas e sigilosas opiniões sobre as evoluções que entretanto se verificavam, o lugar de destino para os então Chefes da Nação ou o nível dos componentes futura da Junta de Salvação Nacional.
Era o teu bom senso a imperar sobre ímpetos entusiásticos e o conhecimento e prudente respeito pelas idiossincrasias individuais e do grupo profissional a que pertencíamos.

Bem cedo na manhã de 25 de Abril fui ao teu encontro na 4ª Rep onde, com o Charais e o Zé Osório, sorviam sofregamente as notícias que as rádios iam transmitindo.
Já noite dentro, findas as minhas tarefas, fui encontrar-te na Pontinha, onde afinal não cheguei a render-te como tínhamos combinado, porque ali ficaste também nas negociações do Programa com Spínola e Costa Gomes e de onde se saiu a caminho da RTP com os membros da Junta.







Poucos sabem que ali tiveste de ler para os sôfregos e ansiosos jornalistas as partes essenciais e consensualizadas do Programa, por carência de tempo e de meios de cópia rápida para um bom aspecto gráfico.
O País ficou então a conhecer-te.

Mas a tua inquietação e movimento não pararam, com ou sem funções governativas.

Lá veio o “Verão Quente” como foi definitivamente baptizado e fomos, os dois, “refugiar-nos” no MNE com a pomposa designação de “embaixadores dos Serviços Externos”  -  embaixadores itinerantes - . 
Ambos nos desincumbimos de tarefas no exterior a partir do nosso gabinete lá ao fundo do corredor, eu no Uganda e em Moçambique e tu em Timor e algures na Europa, mas tu, com vantagem não deixaste de exercer a tua actividade, afinal e plenamente no uso das qualidades requeridas para a função, no interior, em todos os desenvolvimentos em muitos dos quais participei em ligação contigo e que culminaram em 25 de Novembro, com o “Documento dos Nove” de permeio mais as reuniões no sótão do Gomes Mota e os almoços no primeiro andar do Restaurante O Chocalho, em Santos, com admissão exclusiva e direito de acesso que  foi  reservado para nós.
De novo o bom senso, equilíbrio, inteligência e ponderação postos à prova com êxito.

Espaçaram-se depois os contactos, que os afazeres diferenciados também de certo modo impuseram, mas uma regra saudável estabelecemos por essa altura : a de almoçarmos os dois pelo menos nos dias 25 de Abril, após as cerimónias comemorativas na AR, depois do que eu te acompanhava à Avenida da Liberdade que ias descer num grupo numeroso e plural. Para além de outras oportunidades que surgissem.
Assim fizemos até há dois anos.
Coisa que estávamos a reavivar agora como ocasiões que aproveitávamos para saber de nós e para rever a matéria passada e a previsível para o futuro, que sempre te  preocupou.

Normalmente parco em palavras, gostavas mais de ouvir.

Acompanhavas de perto o evoluir da vida política e as nossas ocupações, como disse,  deixaram de ter alguns pontos de sobreposição, no tempo ou na matéria.
Foi assim que, em 1979, estando eu no Songo, em Moçambique, isolado do mundo e das notícias ou quase, dadas as enormes dificuldades de comunicações, recebi, bastante espaçados nas horas dois faxes convidando-me para integrar o V Governo Constitucional. Eu não fazia ideia do que por cá ia entretanto acontecendo. Declinei os convites até que recebi um terceiro fax que continha um quase lacónico “Imprescindível que aceites”  assinado “Vítor Alves”.
Comunicação suficiente.
O conceito era teu ou vosso, como quiseres. A imodéstia da citação é minha.
A fonte da informação relevante para a decisão era fidedigna e a confiança era total e mais que uma vez demonstradamente merecida.

E pus-me a caminho de Lisboa onde cheguei uns dois dias depois ao romper da alva. Esperava-me no aeroporto o carro com um amigo informado sobre as águas corridas para um briefing sintético e, passado pouco tempo, estava no forte de Catalazete a falar com a Maria de Lurdes Pintasilgo ocupada na azáfama de organizar a sua equipa governativa e manifestou o seu agrado e mesmo alívio, se me é permitido assim dizer.

Sei que tiveste gostos e desagrados. Como toda a gente, é certo. Não porque os confessasses, mas porque te conhecia suficientemente bem.

Sei que gostaste do encargo que recebeste de, durante talvez dez anos, presidir à Comissão Nacional para as Comemorações do dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
É que aí juntavas o útil ao agradável. Agradável, porque declaradamente gostavas de viajar. Útil, muito útil mesmo, porque te empenhavas devotadamente em explicar e esclarecer a nossa diáspora sobre o que fora e era o nosso Abril e os horizontes esperados para um novo seu País.


Sei que tiveste pena que o PRD, que ajudaste a criar, não tivesse conseguido uma coisa que ambicionavas: ser deputado europeu.
 Nunca te o perguntei porque não precisava. Também não te vi ou ouvi manifestações de desgosto ou de recriminação. Muito menos queixumes. Mas podes confessar agora, despindo a veste folgazã que por vezes utilizavas e eu te convidava a tirar para seres mais real. Ao que tu acedias.

Lamentei que assim tivesse acontecido, porque achava que a função se te ajustava bem e farias um bom lugar no interesse do País.

Amigo do teu amigo, recordo duas situações, para não referir uma terceira que me disse respeito:
-Como choravas quando ambos e outros quatro amigos levávamos o Ernesto para a sua última viagem;
-Como acompanhaste dedicadamente o Mário de Aguiar, ao ponto de me agradeceres o simples facto de eu o ter ido visitar ao Hospital, ultrapassando uma estúpida tensão de relações que afinal custava a ambos.

Em certa altura resolveste recolher-te, sem perder o contacto com o mundo e as suas circunstâncias.
Dedicaste-te mais à família e descendência e às causas cívicas, sendo um motor e impulsionador da criação da Civitas, composta por pessoas das mais variadas origens e convicções como tu gostavas e a causa exigia, altamente meritória no campo social, da cultura e dos direitos humanos em que comungavam e a que presidiste.

Amigo dedicado e fiel, tiveste-os também, asseguro-te. Tal como detractores, também te asseguro, mas não sei se inimigos. Despeitos em gente menor que a eles não resistiam sim, e também deles sofreste os resultados. Mas pareceu-me que a tua caravana sempre passou, soberanamente indiferente aos latidos, como devia. Assim o soubeste querer, assim o soubeste fazer.
E coisa interessante e rara : nunca te vi como maledicente nem maleficente, não sendo tu, manifestamente, santo ou candidato a beatificação. Mais relevante ainda porque a tua personalidade era forte e assim nos ficou na memória.

De novidades que para ti efectivamente o sejam, nada de especial que não tenhas já e lamentavelmente conhecido noutras oportunidades.
Talvez dois pequenos episódios:
-Um, o de que o teu nome apareceu em rodapés informativos e num insólito mas não surpreendente alinhamento de notícias, nos jornais e nas TVs, que claramente trocou a partida de “um cidadão de primeira” por uma “história de segunda”, como alguém judiciosamente disse. História manifestamente conspícua passada nos Estados Unidos, envolvendo dois portugueses, de problemática relevância, e um homicídio.
-Outro, o de que alguém descobriu, depois de afanosas e pelos vistos muito precisas diligências, que 46% dos portugueses acham que vivem pior do que há 40 anos !...Solene topetada, como talvez o Eça lhe chamasse.

Tenho pena de te dizer isto, porque sei que querias que no País não houvesse este sentido de prioridades, esta afasia masoquista, esta ordenação de relevâncias.

Neste mesmo País e em muitas gentes que não sabem o que te devem.



Meu querido Amigo
Havemos de nos encontrar de novo

Manel



Algés,16 de Janeiro de 2011




23 julho 2010

Entrevista ao jornal "Mirante"




Entrevista concedida ao jornal "Mirante" no dia 23 de Abril de 2013.




A conversa decorreu ao longo de duas horas na casa onde nasceu e de que é proprietário. O Pombalinho é um porto seguro onde Manuel da Costa Braz regressa regularmente para gozar da paz campestre. A entrevista é em grande parte uma soma de episódios da sua vida, farta em acontecimentos relevantes. É do que viveu que gosta de falar, é nesse campo que se sente mais confortável. E tem muitas histórias para contar. Ou não tivesse estado entre a nata política e militar que emergiu da revolução de 25 de Abril de 1974.

Manuel da Costa Braz nasceu em 4 de Novembro de 1934 no Pombalinho, freguesia do concelho de Santarém que recentemente se mudou para o município vizinho da Golegã, mas a profissão do pai, ferroviário, determinou que passasse grande parte da infância e juventude longe da terra natal. Fez a escola primária na Guia (Pombal) e o ensino secundário em liceus de Leiria, Figueira da Foz e Coimbra, antes de ingressar no curso geral preparatório da Escola do Exército quando estava prestes a cumprir 18 anos. Começa aí a sua vida ligada à instituição militar.

“Tenho muito pouco de Pombalinho. Aqui nasci de facto, aqui vinha durante as férias, mas não tenho aqui amigos daqueles com quem a gente convive todos os dias”. A sua residência permanente é em Algés, nos arredores de Lisboa.

Há uns anos o coronel, pai de um casal e avô de três netas, decidiu abrir uma nova frente de combate e dedicar-se a explorar as propriedades agrícolas de que é proprietário nos campos do Pombalinho. A missão não correu da melhor maneira e perdeu “alguns milhares de contos de economias que tinha feito”. Hoje as terras estão arrendadas.

O orgulho em ser ribatejano

Costa Braz tem orgulho nas suas raízes ribatejanas (o pai chegou a ser presidente da Junta do Pombalinho) e é apreciador de touradas, mas prefere vê-las pela televisão em casa. Confessa-se uma pessoa pouco dada a excessos emocionais. Não liga a futebol, embora goste que a Académica ganhe. E a seguir é do Benfica. No que respeita a bairrismos também não é homem de ânimos exacerbados. Ficou satisfeito com a mudança do Pombalinho para o concelho da Golegã, “que evoluiu muito de há uns anos a esta parte”, mas diz gostar de Santarém “embora a ache uma cidade muito parada”. Confessa no entanto que não está muito a par do que se passa por terras ribatejanas.

E como é que um ribatejano que viveu a maior parte da vida fora vê a sua região? “Vejo-a com muito orgulho. Gosto muito de ser ribatejano”. Mas lamenta que o potencial agrícola não esteja aproveitado em toda a sua dimensão. “Há um esforço da Agrotejo, altamente louvável, para emparcelamento de terras e é lamentável que ao fim de 30 anos ainda não tenha sido promovido. As dificuldades encontradas junto dos proprietários têm sido um grande óbice”. No entanto tem esperança que as coisas mudem: “A força das circunstâncias e as carências hão-de obrigá-los a pensar duas vezes como é que hão-de fazer. Nós funcionamos assim!”.

O currículo impressionante de um homem discreto

O seu currículo impressiona pela quantidade e pela qualidade dos cargos que ocupou. Militar da arma de artilharia, Manuel da Costa Braz, nascido no Pombalinho a 4 de Novembro de 1934, foi uma figura de topo da vida pública nacional nos anos seguintes à revolução de 25 de Abril de 1974, tendo integrado a comissão política do Movimento das Forças Armadas (MFA). Participou activamente na preparação do 25 de Abril, fazendo parte do grupo que elaborou o chamado Documento de Cascais e o Programa do Movimento das Forças Armadas.

Como oficial cumpriu três comissões de serviço nas ex-colónias, duas em Angola e uma na Guiné, durante a guerra colonial. Foi adjunto militar do primeiro-ministro do 1º Governo Provisório e em Maio e Junho de 1974 integrou a comissão administrativa da RTP.

Foi ministro da Administração Interna nos II e III governos provisórios e nos I e II governos constitucionais, entre 1976 e 1980, tendo nestes casos como primeiro-ministro Mário Soares e Maria de Lourdes Pintassilgo. Do seu caderno de encargos fizeram parte processos complexos como a organização do recenseamento eleitoral e a preparação das eleições para a Assembleia Constituinte (1975) e primeiras eleições autárquicas (1976).

Foi também o primeiro Provedor de Justiça do país, nomeado em Dezembro de 1975, e Alto Comissário Contra a Corrupção entre Dezembro de 1983 e Maio de 1993. Em 1997, foi nomeado presidente do Conselho Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência. Presidiu ainda ao conselho de administração da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (Moçambique) em representação do Estado português, entre Junho de 1993 e Abril de 1999.

Costa Braz é detentor de várias condecorações nacionais como a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique (1982) e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1985). A Casa do Ribatejo em Lisboa outorgou-lhe o título de “Ribatejano Ilustre” e o Estado espanhol atribuiu-lhe a Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica (1978).

No que toca à política sempre defendeu a sua independência partidária “intransigentemente”, garantindo que “sempre assim foi, mesmo quando estava no Governo”. Considerada uma pessoa moderada, mesmo quando se viviam os tempos conturbados pós-25 de Abril, integrou nessa altura o chamado “Grupo dos Nove” que reunia militares da ala moderada.

“Lamento muito que tenha sido necessária a revolução

Ainda costuma celebrar o 25 de Abril?

"Normalmente celebro em casa. Nunca andei em manifestações. Sempre fui um tipo discreto, mesmo na altura após o 25 de Abril. Activistas eram outros, como o meu queridíssimo amigo Vítor Alves."

O que fez nesse dia?

"O principal da minha actividade foi no antes e no depois do 25 de Abril. Devo dizer que não sabia que o golpe ia ser no dia 25, porque não queria saber. Assim, na eventualidade de detenção não conseguiriam tirar de mim essa informação."

Foi apanhado de surpresa?

"Surpresa, surpresa não diria. Só não sabia era quando. Eu estava colocado no Estado-Maior do Exército e quando me telefonaram para casa a dizer que se ia entrar de prevenção e que tinha de ir para lá juntamente com outros, calculei que tinha chegado a altura. Quando cheguei lá fui para a quarta repartição, onde estavam o Franco Charais, o Vítor Alves e o Sanches Osório a ouvir as notícias na rádio. Depois de resolvidas algumas coisas no Estado-Maior passei por casa, cumprimentei a família, tomei um banho e fui para a Pontinha, onde viriam a discutir-se detalhes do programa que entretanto tinha sido acompanhado na sua elaboração pelos generais Costa Gomes e António de Spínola. Formou-se a Junta de Salvação Nacional e às tantas da manhã fomos para a RTP onde o general Spínola leu a proclamação ao país."

A esta distância temporal como vê a revolução?

"Tem várias vertentes pelas quais podemos considerá-la. Em primeiro lugar, devo dizer que lamento muito que tenha sido necessária a revolução. Aliás, do ponto de vista técnico foi um golpe de Estado, porque revolução, em termos de mudanças de estruturas, foi mais depois na sequência do golpe de Estado. Embora tenha havido uma profunda reformulação da estrutura do Estado, o que já em si era um bocado revolucionário."

Porque diz lamentar que tenha sido necessária a revolução?

"Por coisas que aconteceram depois e que não deviam ter acontecido se tivessem havido antes - e lá aparecem os lamentáveis “ses” - atitudes e procedimentos que se impunham há muito tempo."

Quais?

"Refiro-me fundamentalmente aquilo que se reporta a partir de 1970, em especial com as ex-colónias. As coisas podiam ter sido diferentes se em devido tempo não houvesse a teimosia salazariana, ou se tivesse sido acolhido aquilo que o Marcelo Caetano pensou fazer, e não andássemos com a parvoíce do “orgulhosamente sós”

Foi uma guerra desnecessária?

"A guerra teria que se desencadear, mas podia ter durado muito menos tempo. Podia ter passado por uma resolução política, como fizeram os ingleses em relação à Índia, por exemplo. Fui para Angola como voluntário em 1961. Cheguei lá a 5 de Novembro, no dia seguinte ao meu aniversário. Voltei a Portugal em Julho de 1965 com uma pergunta terrível que renovei no ano seguinte, quando regressei a Angola, e passados uns anos quando fui para a Guiné: “O que é que estou aqui a fazer?”.

Nunca conseguiu encontrar resposta para essa pergunta?

"Não. Quer dizer: a resposta era que não devia lá estar. Não havia um objectivo nacional estabelecido. Aquilo que estava depois no tal “Documento de Cascais” (nota da redacção: elaborado por militares em 1974, pouco tempo antes da revolução) era precisamente a definição dos objectivos nacionais. Isso foi da minha autoria."

Nos tempos seguintes à revolução a situação quase se descontrolou. Temeu uma guerra civil nessa altura?

"De certo modo sim. O grande obreiro para que ela não se verificasse foi um homem a quem muita gente não reconheceu devidamente, o general Costa Gomes. Era um homem extremamente inteligente, que esteve sempre com o grupo dos moderados. Andámos numa actividade muito intensa nesse período. Pensámos sempre que quem saltasse primeiro perdia. Havia na parte militar uma ala esquerdizante e um bocado revolucionária. Do nosso lado, além de outros, estava o Jaime Neves. Os comandos eram a força mais organizada que tínhamos disponível. E o Jaime Neves deu-nos algum trabalho porque a certa altura queria ir por aí acima com os seus comandos."

Por vezes ouve-se dizer que precisávamos de outro 25 de Abril. O que pensa disso?

"Isso são frases feitas, bombásticas. Mas têm um significado, porque não estão colhidas as liberdades fundamentais. Houve um aumento de preocupações de natureza social, na educação, na saúde, etc... E as pessoas não estão agradadas por razões relevantes, sem dúvida alguma. Mas isto também está relacionado com a procura de um certo modo de vida para o qual temos de batalhar mais do que o que temos batalhado."

Temos andado a viver acima das nossas possibilidades, como também se ouve dizer?

"Essa é outra frase feita, mas é verdade. E somos todos culpados disso, mas há responsabilidades maiores de quem exerceu funções governativas. Não se deve gastar mais do que aquilo com que se pode contar. E houve tempos em que se gastou sem se saber muito bem se havia possibilidade de recompor esses gastos."

Foi um militar de carreira que de repente se viu como ministro. Como se sentiu na cadeira do poder?

"Assinei quatro tomadas de posse nessas funções e a minha mão tremeu mais na quarta do que na primeira. No princípio há sempre uma certa inconsciência e depois vai-se tendo mais noção da responsabilidade que se assume. A última vez que tomei posse como ministro da Administração Interna foi em 1979, com Maria de Lourdes Pintassilgo como primeiro-ministro. Não acho que tenha inchado com a circunstância de ser ministro. Quem ficou desvanecido foi o meu pai."

Combate contra a corrupção esbarrou nos tribunais

"Como Alto Comissário Contra a Corrupção (1983-1993), cargo de que foi o primeiro e único ocupante e que chegou a ser equiparado ao de ministro, Costa Braz diz que ficou a conhecer a inércia dos tribunais. Deparou-se com casos que envolviam titulares de cargos políticos. As suas maiores preocupações eram as autarquias locais, a banca nacionalizada e as alfândegas. “E tinha boas razões para isso, porque havia muita mescambilha em qualquer dessas três áreas”. Subornos eram dos casos mais comuns, diz."

“O que eu fazia era procurar vestígios dessas manigâncias. E era sobre essas provas documentais que havia uma diferença de interpretação e de aceitação da minha parte e da parte das entidades judiciais. Porque eu tinha papéis, estava tudo clarinho, mas como o sujeito não era apanhado com a faca na mão a espetar na barriga do outro... Quando se colocam interrogações desta natureza não se consegue chegar a lado nenhum”.

Perante esse sentimento de impotência, foi ele que propôs a extinção desse organismo contra a corrupção, no que foi apoiado pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva. Apesar de considerar que a luta contra a corrupção está longe de estar ganha e de estar mesmo convencido que “houve um alargamento desse tipo de actividades”.

Notícias que lhe deixaram traumas

Costa Braz declara-se em “pousio” da actividade pública” desde 1999, quando deixou, com orgulho e obra feita, o cargo de presidente do conselho de administração da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, em Moçambique, cargo para o qual tinha sido convidado pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva para pôr o complexo a funcionar após os danos causados pela guerra civil. O que conseguiu em Agosto de 1998. “Esse foi o primeiro ano, ao fim de catorze, em que Cahora Bassa teve resultados operacionais positivos. Foi o meu título de glória e acho que não bati com a cabeça no patamar de Peter”.

Na altura viveu um “problema complicado e traumatizante”. Em Junho de 1998 o Diário de Notícias publica alguns artigos que considera “demolidores”. Um dos títulos afirmava que Costa Braz e a família tinham gozado férias à conta da empresa hidroeléctrica, “o que era mentira”. Pôs um processo em tribunal, que o desgastou muito, e passados cinco anos o jornalista e o director do jornal foram condenados a sete meses de prisão, com pena suspensa, e ao pagamento de uma indemnização de 10 mil contos.

Os arguidos recorreram para o Tribunal da Relação, que concordou com as penas da primeira instância. “E com isso se passaram quatro ou cinco anos em que sempre me senti inibido de aceitar qualquer cargo enquanto a situação não fosse esclarecida. Não queria levar esse estigma ou interrogações para o sítio onde fosse”.









21 julho 2010

Presidente da CNRIPD





A Fundação AFID Diferença promoveu mais um Seminário, no passado dia 27 de outubro de 2011, no Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, sob o tema “Qualidade de Vida nos contextos de Intervenção Social”. Participaram cerca de 350 pessoas que manifesta - ram uma enorme satisfação para com os trabalhos realizados e temas discu - tidos. Presidiu ao encerramento o Sr. Ministro da Solidariedade e Segurança Social, Dr. Pedro Mota Soares.















Fonte -   AFID  





20 julho 2010

Personalidade do Ano!












Personalidade do Ano – Vida

Natural do Pombalinho, freguesia da Golegã, o Coronel Costa Braz foi um dos militares envolvidos na preparação da Revolução do 25 de Abril de 1974 e teve um papel fundamental na consolidação da democracia nos anos seguintes. Ministro da Administração Interna em dois governos provisórios e dois governos constitucionais foi do seu gabinete que saíram as primeiras leis sobre o direito de reunião e de associação e a promeira lei dos partidos políticos. Organizou o primeiro recenseamento eleitoral e foi responsável pela concretização das primeiras eleições democráticas para a Assembleia Constituinte. Foi o primeiro Provedor de Justiça e o primeiro Alto-Comissário contra a corrupção.
  

O militar de Abril, Manuel da Costa Braz, que recebeu o Prémio "Vida" foi um dos distinguidos mais bem-humorados da noite. "Para me preparar para este momento fui rever como tinha sido com a Bola de Ouro e, mais recentemente, nos Óscares", atalhou, provocando risos. Mais a sério, Costa Braz referiu que com uma iniciativa deste género "é possível vencer a falta de auto-estima e o miserabilismo que grassa pelo país".









18 julho 2010

Encontro com Manuel da Costa Braz





Há já algum tempo que estava prometido! Hoje, no Restaurante Café Central da Golegã, encontramo.nos finalmente com o Coronel Manuel Costa Braz. Foi muito agradável! À volta de um apetitoso almoço, ouvimos mais do que falamos! Costa Braz é um excelente conversador! Foi como se tivessemos recuado no tempo e na história de Portugal! Ficou "agendada", em data oportuna um novo encontro. Mas dessa vez, segundo suas proprias palavras e desejo,  mais para ouvir do que para falar! Aceite, caro Coronel Costa Braz. E, já agora, um bem haja pela sua disponibilidade e simpatia! Obrigado!










15 julho 2010

Almeida Santos: O Fadista no Político





António Almeida Santos em 1991. Acompanha-o à viola, Manuel da Costa Braz.

Álvaro Tavares/Global NotíciasFacebookTwitterGoogle Plus/ Mariana Pereira





O socialista, que morreu ontem aos 89 anos, aprendeu o fado enquanto estudava Direito em Coimbra e chegou a gravar um álbum. Oiça-o cantar num comício.

"É uma voz outonal a que registo, já sem a sonoridade de outrora. Mas é a que me sobra. Já não tenho outra. E cada um vai às cantigas com as cordas vocais que tem. Registo também umas variações em ré menor, para guitarra, que compus nos meus recuados tempos de aprendiz de guitarrista."



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Foi António de Almeida Santos, ministro dos quatro governos primeiros governos provisórios, um dos principais responsáveis pelos processos de descolonização que seguiu o 25 de abril, ex-presidente da Assembleia da República, e eterno socialista, quem escreveu estas linhas. Constam no álbum que gravou em 2000, Coimbra no Outono da Voz.




f


O socialista, que morreu na segunda-feira aos 89 anos, aprendeu o fado em Coimbra, onde estudava Direito. Nessa cidade a que, no mesmo texto, chamou "a cidade que mais amo" - "revolucionária quando foi preciso" - integrou o Orfeon Académico e a Tuna, e aprendeu a manejar a guitarra com António Brojo. Deixaria como herança aquelas que refere no texto como "umas variações em ré menor" e cuja partitura está ainda disponível.









Fonte - Diário de Notícias   19-Jan-2016